domingo, 10 de agosto de 2014

A “oculta e misteriosa” nobreza de João de Prado, de Olivença

Uma das famílias mais antigas de São Paulo e do Brasil são os “Prados”, descendentes de João do Prado, português que imigrou para o Brasil, na companhia do donatário Martim Afonso de Sousa. Muitas famílias da região Sudeste são descendentes deste João do Prado, o que o faz uma figura singular na genealogia brasileira.
Sobre este povoador pioneiro, sabe-se que era de Olivença, província do Alentejo (hoje, a localidade pertence a Espanha, mas na época, era de domínios portugueses), veio para o Brasil e faleceu no arraial do capitão João Pereira de Sousa Botafogo, em 1597. Foi casado com Felipa Vicente e teve onze filhos.
Na Genealogia Paulistana de Silva Leme (títulos dos Prados), e outras fontes sobre este pioneiro, consta que o mesmo era de “nobreza muito conhecida”, ou de “família cuja nobreza é muito conhecida” (Instituto Histórico e Geográphico Brasileiro – volume 33; volumes 40 – 41; títulos Prados). 

Mas, QUAIS SÃO ESSAS ORIGENS? QUAL É A SUA LIGAÇÃO COM A NOBREZA PORTUGUESA? Não encontramos os nomes dos pais ou avôs/avós de João do Prado. O que sabemos, é apenas sua procedência (Olivença) e período que viveu (entre 1550 – 1600, aproximadamente). Eis o nosso ponto de partida nesta investigação.

Maria Cecília de Sousa cita, entre os documentos sobre Olivença nos arquivos de Lisboa, que, em 23/06/1527, houve uma carta da Câmara de Olivença ao Rei (na época, D. João III), expondo que Antônio do Prado não era capaz de exercer qualquer cargo naquela capitânia. Seria este Antônio do Prado parente ou antepassado (pai ou avô) de nosso João do Prado? É possível.

Ao consultar o título dos “Prados”, na grande obra de Felgueiras Gayo, encontramos um Antônio do Prado (§ 4 N 8), casado com Ignez Gonçalves, cujos pais deste eram Gil de Prado, fidalgo de D. Afonso V e dos Duques de Bragança, com cartas que o menciona em 1475 e 1497. Sua esposa era Brites de OLIVENÇA da Gama, cuja família era presente e tradicional em Olivença (Gamas). Provavelmente, a proximidade de Vila Viçosa (reduto dos duques de Bragança) e Olivença favoreceu a união entre Gil de Prado e Brites de Olivença da Gama. O grande questionamento que fazemos: seria este Antônio de Prado, descrito por Felgueiras Gayo, o mesmo Antônio do Prado que foi “rejeitado” pela Câmara de Olivença (carta encontrada por Maria Cecília de Sousa)? A cronologia estabelecida entre as cartas que mencionam o suposto pai (Gil do Prado – 1475 e 1497) e àquela que menciona Antônio do Prado em Olivença (1527) favorece essa hipótese.
O Antônio de Prado, citado por Felgueiras Gayo, tem sua genealogia descrita (ver figura acima), sendo descendente de D. Afonso III, Rei de Portugal e Beatriz de Castela.
Não podemos afirmar, se estes “Antônios de Prado” eram os mesmos, e não sabemos se o nosso João do Prado é parente ou descendentes destes, mas os indícios apontam essas possibilidades. Se os Antônios fossem o mesmo indivíduo e João do Prado fosse seu filho ou neto, não seria difícil estabelecer o porquê de sua vinda ao Brasil: Como Antônio de Prado foi “execrado” pelos habitantes de Olivença, seu suposto filho/neto ou parente (João do Prado), em busca de prestígio e reconhecimento, rumou para o Brasil, em companhia do nobre donatário Martim Afonso de Sousa. É uma conjectura tentadora, e com algum sentido; no entanto, jamais teremos certeza e convicção sobre as exatas origens de nosso João do Prado.


Sobre a origem dos Prados, em Portugal, convém expor as considerações de Carlos Barata e Antônio Cunha, no clássico “Dicionário das Famílias Brasileiras”, de Carlos Barata e Antônio Cunha [grifos meus]:

“Sobrenome de origem  luso-espanhola de prováveis raízes toponímicas, parece ter sido fundada a família que o usou por sobrenome por Dom Frei João Nunes do Prado, Mestre de Calatrava, que foi pai de João Nunes do Prado, de quem descendem os deste sobrenome. Aquele primeiro João Nunes era neto materno de Dom Afonso III Rei de Portugal.
Sobrenome de origem toponímica, tomado da propriedade da família. De prado, subst. comum - campo coberto de plantas herbáceas que servem para pastagem, campo revolto; hipódromo (Antenor Nascentes, II, 251; Silveira Bueno, Dic. Escolar, 1057). Procede esta família de D. Nuno Fruela, filho de D. Fruela II, fal. em 925, rei de Leão, e de D. Branca Gutierres da Silva, senhora da vila do Prado (Anuário Genealógico Latino, I, 78). Portugal: Felgueiras Gayo trata da antigüidade desta família em seu Nobiliário das Famílias de Portugal, onde informa existirem opiniões diferentes sobre a sua origem. «Huns querem q elles descendão de D. Branca f.ª 3.ª do Rey D. Aff.º 3 de Portugal; a qual foi Sr.ª de Lorvão, Campo Mayor e Monte-Mor o Velho e em Castella Abadeca de Huelgas a qual teve um filho de hum Fidalgo chamado Pedro Esteves Carpinteiro o qual teve por filho D. João Nunes do Prado q foi M.e de Calatrava de q ficou geração fundando-se em Rodes de Andrade e D. Fr. Prodencio de Sandoval q dizem q houve desta familia a Sinalados Cavalheiros no Reyno de Leão, Galiza e Astúrias a m.tas casas sollares e ricas: D. João Nunes de Prado Mestre de Calatrava q foi assinalado cavaleiro no tempo do Rey D. Aff.º 11 e do Rey D. Pedro seu f.º q teve a fronteira de Grabada contra os Mouros q foi filho do d.º Pedro Esteves Carpinteiro e D. Branca f.ª do Rey D. Aff.º de Portugal e irmão do Rey D. Deniz..». Em seguida, Gayo trata das outras versões sobre a origem desta família, no entanto, sua genealogia apresenta aquela primeira versão. Principia em Estevão Carpinteiro, que diz ser descendente de D. Ramiro Nunes do Prado, que vinha a ser bisneto de D. Nuno, conde de Alvites e outras terras nas montanhas de Leão e, este último, filho de D. Bernardo, 1.º Rei de Leão. O dito Estevão Carpinteiro foi pai do já citado Pedro Esteves Carpinteiro, portanto, avô de D. João Nunes de Prado, Mestre de Calatrava, onde alguns autores principiam esta família. Entre os descendentes deste último, registram-se: I - o neto, João Afonso de Prado, que tomou o apelido de Prado de seu avô. Embaixador de Portugal junto à França; II - o terceiro neto, Gil de Prado, Fidalgo da Casa Real do Rei D. Afonso V, por Carta de 1475, conformada ou confirmada? pelo Rei D. Manuel, em 1497; III - o décimo primeiro neto, Manuel Barbosa (da Costa Prado), Capitão de Infantaria na Bahia; IV - o décimo primeiro neto, João de Andrade Pereira [05.09.1650 -], Capitão de Ordenanças, que deixou geração do seu cas. com Luiza de Oliveira, filha de Francisco Velho, natural de Caminha, e de sua mulher, .. (?) de Oliveira, natural da Bahia. Brasil: No Rio de Janeiro, entre as mais antigas, registra-se a família de João do Prado, que deixou descendência, a partir de 1677, com Joana Machado (Rheingantz, III, 71). Importante família, de origem portuguesa, estabelecida em São Paulo, para onde passou João do Prado [c.1553, Olivença, Portugal - 1597], de nobreza ali muito conhecida. Veio nos princípios da povoação de S. Vicente, como muitos outros nobres povoadores, na companhia do donatário Martim Affonso de Souza pelos anos de 1531. Juiz Ordinário [1588 e 1592]. Deixou numerosa descendência de seu cas., c.1579, com Felipa Vicente [? - 1627, SP], filha de Pedro Vicente de Maria de Faria, naturais de Portugal, que foram também dos primeiros povoadores e que em 1554 eram lavradores de grandes canaviais e tinham parte no engenho de açúcar de S. Jorge dos Esramos. Morava em São Paulo em 1584, com fazenda da banda de Pinheiros (AM, Piratininga, 147; SL, III, 90). Foram quartos avós do padre Faustino Xavier do Prado, nat. de Mogy, Cônego da Sé de São Paulo, Familiar do Santo Ofício [1790]. Família de origem argentina, à qual pertence Mercedes Prado, costureira, que passou para o Rio Grande (Rio Grande do Sul) em 1814 (Registro de Estrangeiros, 1808, 248). No sul de Minas Gerais, principalmente na atual região de Paraguassu, a penetração dos descendentes do citado João do Prado (de São Paulo) foi muito numerosa. É de ressaltar Manuel Luiz Ferreira do Prado, conhecido como “Prado Velho” nascido em São Paulo e estabelecido em Campanha da Princesa por ter recebido carta de sesmaria. Casado com Tereza Maria de Jesus Ferreira do Prado, destaca-se, entre os oito filhos do casal, o filho mais velho, homônimo do pai, casado com Ana Jacinta Pereira de Magalhães, pais de Manuel Galdino do Prado, esposo de Luisa Amália Horta de Lemos Lemos, neta do barão do Rio Verde (ver Lemos). Deram origem à família Prado Ferreira, que retornou retornados a São Paulo após dois séculos e meio em MG. A família Prado Pereira originou-se do casamento de uma descendente do Prado Velho com um filho de José de Sousa Ferreira, integrante da cavalaria de S. Majestade El-Rei D. Carlos, último Rei de Portugal, nascido em 1889 em Valverde, Maceira, Leiria, Portugal e imigrado para São Paulo em 1910 [Fonte: Silva Leme, Vol. IV - Prados / O Sertão dos Mandibóias - Fundação de Paraguaçu - Autor: Oscar Ferreira Prado - 1981 / Certidões originais no arquivo de Fernando J. Prado Ferreira]. Sobrenome de uma família estabelecida em Mato Grosso do Sul, para onde transferiu-se Afonso Garcia Prado, nasc. em 04.06.1946, em Pereira Barreto, São Paulo - Agricultor. Residente na Dourados - MS. Casado com Hitomi Moura, nasc. em 06.11.48  [Associação Cultura Nopo-Brasileira Sulmatogrossense - 1988]. Sobrenome de uma família de origem espanhola, estabelecida em São Paulo, procedente de Lisboa. Veio a 19.02.1885, a bordo do vapor Tamar, José Prado, natural da Espanha, 40 anos de idade - com destino a Campinas, SP [Hospedaria dos Imigrantes - São Paulo, Livro 002, pág. 134 - 19.02.1885].
Cristãos Novos: Sobrenome também adotado por judeus, desde o batismo forçado à religião Cristã, a partir de 1497 [Raízes Judaicas, 319].
Heráldica: um escudo em campo de ouro, com um pinheiro de verde arrancado de prata; acompanhado, à esquerda, de um leão passante de negro (Armando de Mattos - Brasonário de Portugal, II, 86)”.

FONTES:
Dicionário das Famílias Brasileiras. Carlos Barata e Antônio Cunha. Título: Prados.

Documentos sobre Olivença nos Arquivos de Lisboa. Maria Cecília Guerreiro de Sousa. Disponível em: www.bibliotecaspublicas.es/olivenza/imagenes/MARIA_CECILIA.pdf

Felgueiras Gayo. Nobiliário de Famílias de Portugal. Reedição de Agostinho de Azevedo Meirelles e Domingos de Araújo Afonso, 1938. Título: Prados. Tomo XXIV. Disponível em:

Genealogia Paulistana – Luiz Gonzaga da Silva Leme – Vol. III – pág. 90 a 136 – títulos Prados

PROJETO COMPARTILHAR – João do Prado