sábado, 17 de abril de 2021

Lopes da Silva e Pereira Lisboa (e-book / divulgação)

 

Caros Leitores,

Tenho o prazer e satisfação de divulgar a todos o livro “Lopes da Silva e Pereira Lisboa: Duas famílias, uma origem”.





O livro é uma ampliação dos ramos e descendência de ambas famílias, já estudadas (muito sucintamente) neste blog. Aqui exploramos mais detalhes da vasta prole nas localidades de Barbacena, Bias Fortes, Juiz de Fora, Ewbanck da Câmara e Piau.

Aqueles que desejarem receber o e-book por email, gratuitamente, podem escrever para o meu e-mail: saulo_franco@yahoo.com.br.

Abraço a todos!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

CRONOLOGIA e NÚMEROS DA INQUISIÇÃO

 

Atualmente, a Inquisição portuguesa e as sagas dos cristãos-novos são assuntos de destaque na genealogia brasileira, seja pelos excelentes trabalhos, livros e pesquisas desenvolvidos nos últimos anos, seja pela concessão de cidadania portuguesa a descendentes de judeus sefarditas, após o ano de 2015.

Há muitas obras de renome, repleta de informações; mas sempre “senti falta” de uma compilação cronológica básica e um resumo quantitativo do número de pessoas sentenciadas.

Nesta breve postagem, em consulta a três obras renomadas (vide referências), faço a exposição proposta.

Reitero que os sentenciados não constituem cristãos-novos em sua totalidade. Há uma série de “crimes” categorizados pelo Santo Ofício, como bigamia, sodomia, blasfêmias, etc. Apenas nos dados do Brasil, graças ao trabalho do saudoso BOGACIOVAS (2015), há o destaque numérico quanto aos praticantes do judaísmo.

 

Cronologia:

NOVINKSKY (2015) elaborou interessante sequência cronológica acerca dos eventos da Inquisição. Dentre as datas destaco as mais decisivas (e incluo algumas):

1492 – (Março): Decreto de expulsão dos judeus da Espanha.

1492 – (Agosto): Saída dos judeus da Espanha.

1496 – (5 de Dezembro): Expulsão dos judeus e mouros - D. Manuel.

1497 – (Abril): São tirados dos judeus os filhos menores de 14 anos.

1497 – (Maio): Provisão para não haver inquirições por 20 anos.

1497 – (Outubro): Batismo forçado de todos os judeus.

1499 – (21 de Abril): Proibição aos conversos de saírem do Reino.

1540 – (20 de Setembro): primeiro Auto-de-Fé em Lisboa.

1552 – Primeiro Regimento da Inquisição (Cardeal D. Henrique).

1580 – Filipe II, da Espanha, se torna Rei de Portugal (União Ibérica)*

BRASIL:

1591 – Primeira Visita Oficial da Inqº a Bahia (Heitor Furtado Mendª).

1593 – Visitação em Pernambuco.

1595 – Fim da primeira visitação ao Brasil.

1618 – Segunda Visita a Bahia (Marcos Teixeira).

1627 – Visitação à região Sudeste (Luís Pires da Veiga).

1635 – Devassa contra religiosos que apoiaram os holandeses.

1640 – Restauração do trono português – Dinastia de Bragança*.

1646 – Inquirições na Bahia. Intensificação das perseguições.

1648 – Grandes expedições de Raposo Tavares contra Jesuítas.

1649 – Cia Geral do Comércio (X.N.s) – apoio Pe Antônio Vieira*.

PORTUGAL e BRASIL:

1666 – Pe Antº Vieira defende os judeus perante D. Pedro II (PORT).

1773 – (25 de Maio): Fim da distinção entre XNs e XVs (M. Pombal)*.

1821 – Abolição do Tribunal da Inquisição em Portugal (Cortes).

 

* datas incluídas pelo autor desta publicação.

* explicação: XNs: Cristãos-Novos / XVs: Cristãos-Velhos.

 

Além do levantamento cronológico, é oportuno também conhecermos o número de pessoas sentenciadas pelo Santo Ofício em Portugal. Eram quatro tribunais: Lisboa, Évora, Coimbra e Goa (Índia). Na capital, incluem-se os sentenciados que residiam nos Açores, Madeira, África e Brasil.

 

Números em Portugal:

O livro “História da Inquisição em Portugal”, publicado por MENDONÇA e MOREIRA (1845), expôs os números do Santo Ofício em Portugal, nas quatro praças de atuação do Tribunal nos domínios lusos.

 

Tribunal de Lisboa:

Páginas do livro: 256 a 291

Autos-de Fé: 248

Período: 20 de setembro de 1540 a 7 de Agosto de 1794

Pessoas Sentenciadas: 7.666 pessoas (3.237 Mª e 3.787 Hº)

Relaxados em carne: 284 homens e 177 mulheres

Aqui estão inclusos os que residiam nos Açores, Madeira, Brasil e África.

 

Tribunal de Évora:

Páginas do livro: 292 a 311

Autos-de Fé: 164

Período: 22 de outubro de 1536 a 16 de setembro de 1781

Pessoas Sentenciadas: 9.973 pessoas

Relaxados em carne: 186 homens e 158 mulheres


Tribunal de Coimbra:

Páginas do livro: 312 a 339

Autos-de-Fé: 277

Período: 5 de outubro de 1541 a 26 de agosto de 1781

Pessoas Sentenciadas: 9.543 pessoas

Relaxados em carne: 142 homens e 171 mulheres

 

Tribunal de Goa (Índia):

Páginas do livro: 340 a 346

Autos-de-Fé: 71

Período: 7 de fevereiro de 1617 a 7 de fevereiro de 1773

Pessoas Sentenciadas: 4.167 pessoas

Relaxados em carne: 41 homens e 16 mulheres

 

TOTAL:

A página 348 da publicação traz um resumo geral dos números, nas quatro localidades da Inquisição portuguesa. Em todo o período (1540 a 1794), foram 31.349 pessoas penitenciadas pela Inquisição portuguesa, das quais 1.175 foram “relaxadas em carne” (condenadas à morte); destes, foram 653 homens e 522 mulheres.

 

Números do Brasil:

Bogaciovas (2015, p. 347) em tabelas, nos informa os quantitativos da Inquisição no Brasil. Os penitenciados no território brasileiro constavam nos números do Tribunal de Lisboa. Destaco:

Foram presos 778 homens e 298 mulheres (total de 1.076 indivíduos). Do total, 223 pessoas foram presas no Século XVI e outras 555 foram presas entre 1701-1750.

20 homens e 2 mulheres foram condenados a morte (relaxados ao braço secular) pela Inquisição.

 

Dos 778 homens presos:

- 373 eram cristãos-novos e 2 judeus;

- 322 foram acusados de judaísmo;

- 318 eram portugueses, e 146 eram naturais do Rio de Janeiro;

- 208 residiam na Bahia, 183 no Rio de Janeiro, 120 em Pernambuco, 55 em Minas Gerais, 40 no Pará, 26 na Paraíba, 10 em São Paulo e 10 no Maranhão;

 

Das 298 mulheres presas:

- 231 eram cristãs-novas;

- 222 foram acusadas de judaísmo;

- 162 residiam no Rio de janeiro, 41 na Bahia, 29 na Paraíba, 15 em Pernambuco, 12 no Pará, 5 em Minas Gerais.

 

Eis, nesta publicação, o resumo cronológico e numérico da Inquisição portuguesa, com desdobramentos no território brasileiro. Se o assunto possui algum destaque dentre os que estudam genealogia e história, entendo que o tema ainda é incipiente para grande parte da população brasileira, midiático e televisivo. Quantas sagas e dramas poderiam ser produzidos!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

NOVINSKY, A.. Os judeus que construíram o Brasil: fontes inéditas para uma nova visão da história / Anita Novinsky [et al]. – São Paulo: Planeta do Brasil, 2015, 304 p. ISBN: 978-85-422-0612-8.

 

MENDONÇA, J. L.. História da Inquisição em Portugal / José Lourenço de Mendonça e Antônio Joaquim de Moreira – Lisboa: J.B. Morando, 1845, 632 p..

 

BOGACIOVAS, M.. Cristãos-Novos em São Paulo (Séculos XVI-XIX): assimilação e nobilitação / Marcelo Meira Amaral Bogaciovas – São Paulo: ASBRAP, 2015, 480 p. ISBN: 978-85-918719-2-6.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

CRISTÃOS-NOVOS EM MINAS GERAIS

 

Minas Gerais, estado da Federação com 300 anos completados no ano de 2020 quanto a “emancipação” da grande capitania de São Paulo, possui consideráveis raízes judaizantes/cristãs-novas em seus povoadores. Antes de aprofundarmos as considerações específicas ao título, se faz oportuna breve reconstituição da História de Minas Gerais.

Todo o território mineiro pertencia a capitania de São Vicente. No Século XVII, ocorreram várias expedições em busca de metais preciosos, destacando-se a expedição de Fernão Dias Paes, bandeirante de vulto na História do Brasil. O famigerado metal foi encontrado nos rios entre as atuais Mariana e Ouro Preto.

Em 1698, Garcia Rodrigues Paes (de ascendência cristã-nova) conclui o “Caminho Novo”, ligação terrestre entre o Rio de Janeiro e a região de Vila Rica (atual Ouro Preto-MG), somando-se ao já existente “Caminho Velho”, cuja via era de Paraty-RJ até as regiões auríferas, porém, pelo sul dos atuais estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Entre 1707 a 1709 ocorreu a Guerra dos Emboabas, conflito entre os paulistas, povoadores iniciais da região e os “emboabas”, indivíduos de fora da capitania, em especial os portugueses, ditos “reinóis” e povoadores de outras regiões do Brasil. A vitória dos portugueses foi decisiva, no que tange as medidas administrativas que, a partir dali ocorreriam, com a criação já em 1709 por parte da Coroa Portuguesa da grande Capitania “São Paulo e Minas do Ouro”, englobando vasto território (atuais estados São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Goiás e Mato Grosso).

Em 1714, foram criadas três comarcas dentro do território “das Minas”: Ouro Preto (sede em Villa Rica), Rio das Mortes (sede em São João Del Rey) e Rio das Velhas (sede em Sabará). O controle administrativo maior e mais próximo se tornou necessário certamente em razão dos ressentimentos ainda existentes do conflito e expectativas de grande extração e fluxo de ouro. Em 1720, a Capitania de Minas Gerais foi desmembrada da grande Capitania de São Paulo, o que constitui no “nascimento” oficial do atual estado.

Todas essas fases iniciais de povoamento e consolidação político-administrativa, se confundem com a presença de cristãos-novos na região.

O povoamento das regiões auríferas se intensificaram a partir da exploração do metal precioso, em grande proporção.

É oportuno destacarmos dois GRANDES FLUXOS (ANTIGOS) DE CRISTÃOS-NOVOS (E/OU DESCENDENTES) EM MINAS GERAIS:

1)      Povoamento inicial, via bandeirantes paulistas, principalmente;

2)      Portugueses, em especial aqueles que vieram no Século XVIII (Período Aurífero);

 

1) POVOAMENTO INICIAL e PRIMÓRDIOS

Quanto ao fluxo inicial de povoadores, destacamos o fluxo de paulistas para as Minas Gerais. Nestas considerações, enfatizo o interesse especial nos indivíduos que possuem ascendência descrita na GENEALOGIA PAULISTANA (GP) de Silva Leme, célebre obra genealógica publicada no início do século passado.

Os títulos da GP cujos patriarcas foram considerados cristãos-novos pela Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) são os seguintes:

- PEDROSOS BARROS

- BICUDOS

- ALVARENGAS (Antônio Rodrigues de Alvarenga apenas)

- FREITAS

- GARCIAS VELHOS

- FERNANDES POVOADORES

- JORGES VELHOS (todo Jorge-Velho é Garcia-Velho)

- CAMPOS (todos os descritos na GP são Bicudos por via materna)

- ARZAM (a esposa de Cornélio D’Arzam era filha de Martim R. Tenorio)

- TENORIOS (Martim R. Tenorio, batismo tardio; Ver G. Salvador, p. 95)

- TOLEDOS PIZAS (todo Toledo Piza é Freitas)

- GODOYS (todo Godoy é Garcia-Velho)

- FURQUINS (todo Furquim é Garcia-Velho)

- CHASSINS (Todo Chassim descende dos Bicudos e Alvarengas)

- SAAVEDRAS (Todo Saavedra é Garcia-Velho)

 

Os antigos paulistas que se dirigiram para Minas Gerais, com ascendência nos títulos acima descritos, não eram necessariamente praticantes de ritos da religião judaica enquanto viviam, mas, possuíam ascendência nos ditos “patriarcas” da Genealogia Paulistana que hoje são certificados pela Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) como cristãos-novos.

Para realizar um levantamento completo de todos os povoadores com ascendência próxima de judeus sefarditas que imigraram para Minas Gerais (não só os praticantes da religião judaica, mas de todos aqueles que possuíam ascendência), seriam necessários anos de detalhadas pesquisas, em razão da elevada descendência destes povoadores iniciais e complexidade nos levantamentos a serem realizados.

Cito, aqui, como breves exemplos, alguns casais com ascendência cristã-nova (na Genealogia Paulistana) e grande descendência nas regiões do Sul de Minas, Zona da Mata Mineira e Campo das Vertentes:

 

ANDRÉ DO VALLE RIBEIRO, b. no Valongo, Porto-PT, 24/05/1675, casou em São João Del Rey-MG em 09/05/1707 com TERESA DE MORAES (*), natural de São Paulo-SP. Teresa de Moraes é descendente, pela linha materna, de Antônio Bicudo e Isabel Rodrigues, e também bisneta do Mestre-de-Campo Antônio Raposo Tavares, este último considerado como cristão-novo pela pesquisadora Anita Novinsky.

 

FRANCISCO DE OLIVEIRA BRAGA, natural de Palmeira, Braga-PT, falecido em Baependi, São João Del Rey-MG em 25/07/1769, foi casado com ESCOLÁSTICA DO ALBERNAZ (*), natural de Pindamonhangaba-SP. Escolástica do Albernaz é descendente de Antônio Bicudo, Antônio Rodrigues de Alvarenga e Garcia Rodrigues - Isabel Velho.

 

Capitão-Mór JOÃO DE TOLEDO PIZA CASTELHANOS (*), paulista, nascido na segunda metade do Século XVII [GP, Vol. V, pag. 447], c.c. MARIA PEDROSO. Povoadores de Campanha-MG. João de Toledo Piza era neto materno de uma Maria Pedroso (homônima da esposa), que, por sua vez, era descendente de Sebastião de Freitas.

 

JOÃO INÁCIO XAVIER, natural da Candelária-RJ, casado em 1764 em Guaratinguetá-SP com MARGARIDA CARVALHO DA ENCARNAÇÃO (*) [GP, Vol. III, pag. 58]. Margarida era filha de Antônio Carvalho Marques e Maria da Motta Paes, por sua vez, descendente de Antônio Bicudo.

 

Há também povoadores que possuem ascendência em cristãos-novos de São Paulo, mas, diferentes daqueles patriarcas (troncos) da Genealogia Paulistana;

Exemplo:

GASPAR RIBEIRO DO PRADO (*), b. 24/09/1702 em São Paulo, em 23/12/1727, Barbacena-MG c.c. MARIA SOARES DE OLIVEIRA. Gaspar faleceu em Ibitipoca, São João Del Rey-MG em 06/02/1740. Gaspar Ribeiro do Prado é descendente por varonia de Manoel Preto de Moraes, português de Beja-PT, cuja irmã (Maria das Neves), mãe (Isabel Ramos) e avó (Francisca Dias) foram presas por “judaísmo, heresia e apostasia”. OBS: o autor deste texto foi certificado pela CIL como descendente de cristãos-novos por esta via.

 

Embora com menor proporção de indivíduos, é importante também mencionar o Rio de Janeiro e outras regiões/capitanias como origem de povoadores com ascendência cristã-nova;

Breves exemplos:

Capitão JOSÉ DE SOUZA PORTO, casado, em aproximados 1708 com ANTÔNIA MARIA DE AZEVEDO (*), b. 1710, falecida em Sabará-MG, 1759. Antônia Maria de Azevedo era neta materna de Alexandre Freire e Helena de Azevedo, esta última cristã-nova, natural do Rio de Janeiro, presa em 01/12/1718 e Auto-de-Fé em 1720.

 

ANTONIO ALVARES DE CASTRO, natural de Lisboa, S. Paulo, Portugal capitão-comandante da ordenança de Itacolomy em 1741, cidadão da vila de N. S. de Ribeirão do Carmo, Minas Gerais, com o foro de cavalheiro (28 de fevereiro de 1721), vereador em 1741, juiz almotacel em 1742, da vila elevada a cidade a 23 de abril de 1745, com o nome de Mariana. Casado com JOANNA BAPTISTA DE NEGREIROS (*), natural da cidade da Bahia, freguesia de N. S. do Desterro;

ALEXANDRE DA CUNHA MATTOS, guarda-mór de Villa Rica (atual Ouro Preto-MG) natural de S. Simão de Arões, Portugal, era casado com ANTÔNIA DE NEGREIROS (*), irmã de Joanna;

[GP, Vol. II, pag. 202]. Joanna Baptista de Negreiros e Antônia de Negreiros eram filhas de Antônio Carvalho Tavares e de sua mulher Margarida de Negreiros, ambos naturais e moradores da Bahia. A dita Margarida era descendente de Manuel Paredes, cristão-novo de Lisboa residente na Bahia, filho de Agostinho de Paredes e Violante da Costa, com auto-de-fé em 04/08/1593.

 

Os casos aqui expostos são breves exemplos, em meio a dezenas de casais e indivíduos. São inúmeros os povoadores com ascendência cristã-nova, seja aqueles que ainda praticavam os ritos judaicos, seja daqueles já totalmente inseridos no catolicismo (mas com ascendência próxima em cristãos-novos). Catalogar estes povoadores anteriores ao Século XVIII seria esforço de anos, e creio que, mesmo assim, haveria omissões consideráveis, visto a amplitude geográfica e genealógica da população mineira, mesmo em períodos tão remotos.

 

2) CRISTÃOS-NOVOS POVOADORES (SÉCULO XVIII)

Quanto a Minas Gerais no Século XVIII, é pertinente e oportuno citarmos a listagem de cristãos-novos residentes nas Minas Gerais, entre 1712 e 1763, exposta no livro “A Inquisição em Minas Gerais no Século XVIII”, de Neusa Fernandes, publicado em 2004 (pag. 177 a 184 – Anexo 4). O trabalho da pesquisadora é de suma importância. São dezenas de indivíduos mencionados por localidade, a saber: Brumado, Cachoeira, Caeté, Catas Altas, Congonhas do Campo,  Córrego do Pau das Minas de Arasuahy, Curralinho, Diamantina (antigo Tijuco), Fornos, Itaverava, Juiz de Fora,  Minas de Arassuahi, Minas de São José, Minas Novas do Fanado, Minas Novas de Paracatu, Ouro Branco, Ouro Fino,  Ouro Preto (antiga Vila Rica), Paranapanema, Pitangui, Ribeiro do Carmo (Mariana), Rio das Mortes, Sabará, São Caetano, São Jerônimo, São João Del Rey, Serro Frio, Sumidouro e também indivíduos em locais não definidos.

 

Na lista elaborada pela pesquisadora Neusa Fernandes, há indivíduos que também são mencionados na Genealogia Paulistana (não como cristãos-novos). Silva Leme e antigos genealogistas não identificaram povoadores com ascendências judaizantes, em razão da ausência de pesquisas no período e “pensamento” da época, que pretendia omitir qualquer vínculo genealógico com cristãos-novos.

Nos casos dos cristãos-novos listados por Neusa Fernandes) que porventura possuem ascendência descrita na Genealogia Paulistana, são exemplos crassos em que estes povoadores/habitantes de Minas Gerais, mantiveram a prática dos ritos judaicos e/ou tiveram sua ascendência reconhecida e foram classificados, a sua época, como cristãos-novos.

Para exemplificar os casos acima descritos, é oportuno observar a ascendência de três indivíduos: Os irmãos Bernardo Campos Bicudo e José Campos Bicudo (de Pitangui) e Garcia Rodrigues Paes (Rio das Mortes).

Bernardo (ou Bernardino) Campos Bicudo e José Campos Bicudo, moradores em Pitangui, descritos respectivamente nos Capº 5º e 6º do título “Campos”, Vol IV, pág. 166 da Genealogia Paulistana, eram filhos de Margarida Bicudo e Filipe de Campos Banderborg, netos maternos de Maria Bicudo (casada com Manoel Pires), falecida em 16 de janeiro de 1659 em Santana do Parnaíba, São Paulo; por Maria, eram bisnetos de Antônio Bicudo {Carneiro} c/c Isabel Rodrigues. Interessante notar que a ascendência e transmissão do sobrenome “Bicudo” foi matrilinear. Os irmãos Bernardo (Bernardino) e José Campos constam como cristãos-novos nos estudos de Neusa Fernandes. Temos, aqui, claro exemplo de continuidade dos ritos judaicos, verificados em povoadores de Minas Gerais com ascendência comprovadamente cristã-nova.

Garcia Rodrigues Paes, “construtor” do Caminho Novo é um caso singular. Em diligência de Habilitação para a Ordem de Cristo, realizada a 29 de outubro de 1710 o requerente não foi aprovado, em razão de ser “infamado de cristão-novo por parte de sua avó materna por famas constantes e por estes impedimentos se julgou por incapaz de entrar na ordem (...)”. Este fato fez o ilustre bandeirante constar na relação da pesquisadora Neusa Fernandes, como cristão-novo de Minas Gerais.

Silva Leme, ao tratar de Garcia Rodrigues Paes na pág. 455 do Vol. II da GP menciona que o mesmo fora agraciado em 1702 como cavalheiro fidalgo da Casa Real, por “seus serviços”, mas nada menciona sobre a reprovação na Habilitação de 1710, por sua ascendência cristã-nova.

Sobre Garcia Rodrigues Paes, sua avó materna era Maria Betting, esposa de Garcia Rodrigues Velho; a dita Maria Betting era filha do alemão Geraldo Bettink e Custódia Dias, e neta materna de Manoel Fernandes e Susana Dias. Manoel Fernandes pertence aos “Fernandes Povoadores”, hoje conhecidos como cristãos-novos. Interessante notar também que Susana Dias era neta materna de João Ramalho e da índia Bartira. Sobre João Ramalho, há estudos e opiniões conflitantes sobre sua origem judaizante. Independente da ascendência de Susana Dias, temos aqui outro exemplo de um antigo povoador de Minas, com raízes judaizantes. Garcia Rodrigues Paes, sem dúvida, é nome de vulto na História de Minas Gerais.

Certamente, na abrangente e ampla listagem apresentada pela pesquisadora Neusa Fernandes, caberia interessante estudo da ascendência dos indivíduos, não só daqueles com ascendência paulista, mas de todos. Muito seria revelado acerca das relações familiares e transmissão do judaísmo no período.

Diante de todas as considerações fica demonstrado a meu modo, as raízes judaizantes dos primeiros povoadores de Minas Gerais, e, por consequência, a nossa ancestralidade também ligada aos cristãos-novos. Um legado esquecido por muitos anos, mas com considerável estudo e resgate na atualidade, com diversos trabalhos, pesquisas e publicações. Certamente, ainda há muito a ser feito!

 

BIBLIOGRAFIA:

 

VASCONCELOS, D. História Antiga das Minas Gerais. Beltrão & C – Livreiros e Editores. 1901. Ouro Preto.

 

LEME, L.G.S. Genealogia Paulistana. Luiz Gonzaga Silva Leme (1852-1919). Transcrito/publicado por: http://www.arvore.net.br/Paulistana/

 

FERNANDES, N.. A Inquisição em Minas Gerais no Século XVIII. 2ª ed. – Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004. 212 p. ISBN: 85.7511.069.1. Conteúdo consultado: pag. 177 a 184 – Anexo 4.

 

SALVADOR, J.G.. Os cristãos-novos: povoamento e conquista do solo brasileiro, 1530-1680. São Paulo, Pioneira, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1976. CDD-981.021-301.45296081.

 

+ RELATÓRIOS, ESTUDOS e PESQUISAS FEITOS PELO AUTOR.

sábado, 22 de agosto de 2020

BARBOSAS: De Celorico de Basto-POR para Juiz de Fora-BRA

 

Os irmãos Maria da Conceição Barbosa, casada com José Lopes da Silva, Júlia Maria Barbosa casada com Procópio Lopes da Silva e Manoel Luiz Barbosa casado em 09/10/1909, no Rosário, com Rita Cândida da Silva, com seus respectivos matrimônios, geraram considerável descendência “Lopes da Silva – Barbosa”, sendo os filhos destes três casais muitos primos-irmãos (Os Lopes da Silva já foram descritos em artigos anteriores, neste blog).

 

O pai destes três irmãos Barbosas era Manoel Luiz Barbosa da Cunha, português, nascido cerca de 1838 na freguesia de São Miguel de Carvalho, concelho de Celorico de Basto, arcebispado de Braga, Portugal. Imigrou para o Brasil por volta de 1870-1875. Manoel Luiz faleceu em 23/05/1902, Paula Lima, Juiz de Fora-MG com 64 anos de idade e inventário aberto em 04/06/1902. Sua esposa, Maria Luíza da Conceição pertencia a família Pereira Lisboa (Já descrita neste mesmo blog).

 

O dito Manoel veio para o Brasil com os irmãos Domingos Luiz Barbosa (nascido em 29/12/1838, batizado no dia seguinte, no lugar da Ribeira, freguesia de São Miguel do Carvalho, Celorico de Basto-PT) e João Luís Barbosa da Motta, na companhia de Abílio Luís Barbosa, filho do anterior, também português, falecido em Chapéu D’Uvas, Juiz de Fora-MG aos 30/05/1892, com 18 anos de idade, de febre, cujo declarante do óbito foi o tio Domingos. Maria Barbosa da Motta, irmã de Manoel, Domingos e João, também imigrou para o Brasil, com o marido Antônio Ribeiro, e posteriormente casou-se novamente. Alguns irmãos permaneceram em Portugal (Teresa, José, Antônio e Joaquina).

 

As informações acerca dos irmãos de Manoel Luís Barbosa da Cunha me foram repassadas pelo pesquisador e amigo Sérgio Marinho, também descendente dos Barbosas. Na ocasião, recebi do mesmo a ascendência destes cadastrada no site Family Search. Fiz a conferência de todos registros de batismo e casamento, para confirmar as informações do dito site. Em alguns ramos, pude avançar ainda mais, encontrando, inclusive, uma intersecção de ascendência no Nobiliário das Famílias de Portugal, de Felgueiras Gayo, conforme descrito no decorrer do texto.

 

 

A ascendência da família, em formato AHMENTAFEL, é a seguinte:

  

1 – Manoel Luís Barbosa da Cunha, nascido cerca de 1838 na freguesia de São Miguel de Carvalho, concelho de Celorico de Basto, arcebispado de Braga, Portugal. Imigrou para o Brasil por volta de 1870-1875. Falecido em 23/05/1902, Paula Lima, Juiz de Fora-MG com 64 anos de idade e inventário aberto em 04/06/1902.

 

PAIS

2 – José Luiz Barbosa, batizado em São Miguel de Carvalho, Celorico de Basto-PT, a 30/05/1811, casado na mesma localidade, em 29/10/1834, com:

3 – Maria da Motta {em casada, Maria da Motta Barbosa}, batizada em em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT, a 25/12/1813.

 

AVÓS

4 – José Luiz Barbosa, batizado em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT, a 08/10/1768.

5 – Ana da Cunha, natural da Borda da Montanha, C. de Basto-PT

6 – Manoel da Motta, batizado em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT, a 16/11/1777.

7 – Maria Teixeira, batizada em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT, a 10/09/1785.

 

BISAVÓS

8 – Luiz Antônio Barbosa, batizado na freguesia de Santa Tecla, C. de Basto-PT a 25/08/1739. Se casou em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT a 25/12/1767 com

9 – Maria Teixeira da Cunha, batizada em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT a 25/11/1746.

10 – Francisco da Cunha, batizado em Carrazedo, C. de Basto-PT a 05/08/1726.

11 – Senhorinha Domingues.

12 – Gervásio da Motta, batizado na localidade de Inchouzelas, freguesia de Caçarilhe, C. de Basto-PT em 29/09/1736. Casou em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT a 05/01/1777 com

13 – Rosa Mª Teixeira Gonçalves, batizada em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT, 28/02/1760.

14 – Antônio Cerqueira, batizado em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT a 05/11/1749.

15 – Mariana Teixeira Gonçalves, batizada em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT a 23/11/1752.

 

TRISAVÓS

16 – Luís Antônio Barbosa, batizado em Fervença, C. de Basto-PT a 05/07/1711. Casou em Santa Tecla a 22/07/1733 com

17 – Mariana Leite de Moraes, natural de Nogueira, C. de Basto-PT.

18 – Manoel Teixeira, batizado em S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT a 31/10/1700.

19 – Fabiana da Cunha, batizada em Santa Tecla, C. de Basto-PT a 02/04/1710.

24 – Antônio Mendes.

25 – Ângela da Motta (solteira).

26 – Domingos Teixeira, natural da Ribeira, S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT.

27 – Ângela Gonçalves, natural da Ribeira, S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT.

28 – Francisco Cerqueira, natural de Rebalde, S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT.

29 – Maria Gonçalves, natural de Rebalde, S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT.

30 – Domingos Gonçalves, natural de Rebalde, S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT.

31 – Maria Teixeira, natural de Rebalde, S. M. de Carvalho, C. de Basto-PT.

 

TETRAVÓS

32 – Manoel Barbosa, já falecido em 1733.

33 – Ana Clemente, natural de Fervença, C. de Basto-PT.

34 – Antônio Leite Pereira, batizado em Crespos, S. P. Britelos-PT a 24/01/1677 (sua procedência é informada no batismo de um dos netos). Era solteiro, falecido após 1733.

35 – Mariana Álveres, natural do lugar de São Martinho, freguesia de Santa Tecla, C. de Basto-PT.

36 – Domingos João.

37 – Maria Teixeira.

38 – Belchior da Cunha, natural da Lavandeira, Sª Tecla, C. de Basto-PT.

39 – Izabel Francisca, batizada em Sª Tecla, C. de Basto-PT a 03/05/1672.

50 – Gonçalo Gonçalves, natural de Sobreiro, S. Tiago, faleceu em Inchouzelas, C. de Basto-PT a 10/02/1731. Antes, casou-se em Caçarilhe, C. de Basto-PT a 14/10/1697 com

51 – Maria da Motta, batizada em Inchouzelas, C. de Basto-PT a 25/03/1677, falecida na mesma localidade, em 11/01/1740.

52 – Domingos Teixeira, natural de Barregã.

53 – Úrsula Leite, natural de Mendroniz.

54 – Luís Gonçalves, natural de Robalde.

55 – Maria Gonçalves, natural de Robalde.

56 – Antônio Cerqueira, natural de Rebordãos, Freguesia de Infesta, C. de Basto-PT, casou na mesma localidade a 21/12/1692 com

57 – Luzia Leite (ou Francisca), natural de Rebordãos, Freguesia de Infesta, C. de Basto-PT.

58 – Domingos Gonçalves, natural de Rebalde, S. Miguel de Carvalho, C. de Basto-PT.

59 – Ana Teixeira, natural de Rebalde, S. Miguel de Carvalho, C. de Basto-PT.

60 = 58

61 = 59

62 – Manoel Teixeira, natural do Cazal, casou em 20/02/1708 com

63 – Ângela Gonçalves, natural de Rebalde, S. Miguel de Carvalho, C. de Basto-PT.

 

PENTAVÓS

68 – Antônio Lopes Leite, casado em Crespos, S. P. Britelos a 28/05/1672 com

69 – Maria Nogueira.

78 – Antônio Francisco, batizado em S. Tecla, C. de Basto-PT a 29/07/1637.

79 – Paula Francisca, de Arnóia, C. de Basto-PT.

102 – Padre Pedro da Motta, com exercício em Inchouzelas, Caçarilhe, C. de Basto-PT entre aproximadamente 1632-1669. Teve vários filhos naturais.

103 – Catarina Domingues.

112 – Gonçalo Martins, natural da freguesia de Infesta, C. de Basto-PT, casou na mesma localidade a 22/07/1670 com

113 – Ana Cerqueira, natural da freguesia de Infesta, C. de Basto-PT.

114 – Antônio Gonçalves, natural da Barreira, Caçarilhe, C. de Basto-PT.

115 – Maria Francisca, natural da freguesia de Infesta, C. de Basto-PT.

124 – Antônio Gonçalves.

125 – Maria Teixeira.

126 – Jerônimo (Hierônimo) Gonçalves.

127 – Catarina Gonçalves.

 

HEXAVÓS

136 – Cristóvão Leite (Pereira), natural da freguesia de São Salvador de Fervença, C. de Basto-PT.

137 – Maria Lopes, natural da freguesia de São Salvador de Fervença, C. de Basto-PT.

138 – Miguel Gaspar, natural de Crespos, casou na mesma localidade a 10/02/1634 com

139 – Joana Nogueira.

156 – Brás Francisco, batizado em Santa Tecla, C. de Basto-PT a 02/02/1609. Na mesma localidade, a 06/05/1629 casou com

157 – Senhorinha Catarina Martins.

158 – Domingos Francisco Gonçalves.

159 – Maria Francisca João.

224 – Antônio Martins.

225 – Maria Gonçalves.

226 – Antônio Cerqueira, casou-se em Infesta, C. de Basto-PT a 17/04/1640 com

227 – Margarida Antônia.

 

HEPTAVÓS

276 – Gaspar Pires.

277 – Guiomar Fernandes.

278 – Garcia Nogueira.

279 – Maria [ilegível].

312 – Amaro Francisco, batizado em Santa Tecla, C. de Basto-PT a 20/01/1580. Na mesma localidade, a 10/02/1602 casou com

313 – Maria Domingues.

314 – Pedro Martins, batizado em Santa Tecla, C. de Basto-PT a 12/03/1581. Na mesma localidade, a 03/02/1608 casou com

315 – Maria Pires, batizado em Santa Tecla, C. de Basto-PT a 10/04/1586.

452 – Francisco Cerqueira, natural de Infesta, C. de Basto-PT. Certamente, é o mesmo Francisco Cerqueira de Infesta descrito por Felgueiras Gayo como “cazado na m.ma fregª c.g.” (Nobiliário das Famílias de Portugal – F. Gayo – Título CERQUEIRAS § 101 N 8). A freguesia de Infesta era pequena, com poucos registros nos livros de batismos e casamentos. A cronologia e todo o contexto são compatíveis para inferirmos que estes “Franciscos Cerqueiras” são a mesma pessoa.

453 – Senhorinha Francisca.

454 – Antônio Gonçalves.

455 – Maria Álvares.

 

OCTAVÓS

624 – Sebastião João.

625 – Maria Alves Gonçalves.

628 – Francisco Martins, casado em Santa Tecla, C. de Basto-PT a 08/09/1579 com

629 – Maria Fernandes.

630 – Pedro Gonçalves.

631 – Maria Pires.

904 – Manoel Cerqueira, “Reitor de Infesta” (Nobiliário das Famílias de Portugal – F. Gayo – Título CERQUEIRAS § 101 N 8).

905 – “de sua manceba” (Nobiliário das Famílias de Portugal – F. Gayo – Título CERQUEIRAS § 101 N 8).

 

NONAVÓS

1.258 – Pedro Fernandes

1.808 – Sebastião Pires “da Porção”, natural da Borda da Montanha (Nobiliário das Famílias de Portugal – F. Gayo – Título CERQUEIRAS § 7 N 7).

1.809 – Francisca Moniz Cerqueira (Nobiliário das Famílias de Portugal – F. Gayo – Título CERQUEIRAS § 7 N 7).

 

A referida Francisca Moniz Cerqueira era irmã do Licenciado André Cerqueira descrito por F. Gayo como “Capelão do Rei” e “Confessor da Rainha D. Catarina”. Estes são respectivamente D. João III e sua esposa D. Catarina da Áustria. O reinado do dito monarca compreendeu os anos de 1521 a 1557. A cronologia está compatível com o que foi descrito.

A ascendência de ambos encontra-se no Nobiliário das Famílias de Portugal, de Felgueiras Gayo (vide referências). A obra é de domínio público e encontra-se digitalizada, para consulta. O leitor poderá encontrar toda a ascendência destes Cerqueiras, até os primórdios da nação lusitana e da Europa.

Os ditos Cerqueiras, além de sua própria origem, através das ligações familiares minuciosamente descritas por Felgueiras Gayo, descendem de troncos/famílias fundadoras do Reino, em especial: Freitas, Sampayos, Pereiras, Carvalhaes, Vilarinho, Novaes, Vasconcelos, Ribeiros, Silvas, Sousas, Coelhos, Machados, Portocarreros, Bayoens, Azevedos, Alcoforados, Peixotos, Aguiares, Mogudos, Soverosas, Pachecos, Nóbregas, Cunhas, Espinhéis, Teixeiras, Pimentéis, Barretos, Velhos, Alvarengas, Meirelles, Valadares, Alões, Barbosas e o próprio D. Afonso Henriques (1109-1185), primeiro Rei de Portugal e toda a ascendência que o mesmo traz (D. Afonso VI, Rei de Castela, Carlos Magno, Imperador Franco, etc) ESTÃO EM NOSSA ASCENDÊNCIA (Nobº de F. Gayo).


Para este autor, traçar nossa ascendência até os primórdios das primeiras famílias do reino português em fontes confiáveis e fidedignas é motivo de satisfação e orgulho.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Registros paroquiais portugueses. Disponível em:

https://hades.tombo.pt/f/cbt07

 

 

GAIO, Felgueiras, 1750-1831. Nobiliário de famílias de Portugal / Felgueiras Gaio. - [Braga] : Agostinho de Azevedo Meirelles : Domingos de Araújo Affonso, 1938-1941 (Braga : : Pax). - 17 v. : il. ; 30 cm; Digitalizado e disponível em: http://purl.pt/12151

  

sábado, 4 de abril de 2020

RIBEIRO SALVAGO: ASCENDÊNCIA JUDAIZANTE



Nos dias atuais, a pesquisa genealógica no Brasil experimenta grande interesse e crescimento, em especial, pela busca de antepassados cristãos-novos/judaizantes.
Hoje, no presente texto, apresentarei a ascendência paterna do paulista Gaspar Ribeiro, batizado em 02/09/1648, posteriormente casado com Catarina do Prado. O referido casal é citado na Genealogia Paulistana, obra original de Silva Leme, no Volume 3º, Título PRADOS, Capítulo 9º, página 367.
No texto do ilustre autor, apenas a ascendência de Catarina do Prado é desenvolvida. A descendência do casal e a ascendência de Gaspar Ribeiro não são estudadas na referida obra. Quanto a estas informações, os pesquisadores modernos Marta Amato e Fabrício Guerín realizaram descobertas importantíssimas quanto a família.
Quanto a descendência do casal, um dos netos, Gaspar Ribeiro do Prado, povoou Minas Gerais, na região de Barbacena, onde uma filha deste, Luzia Soares Ribeiro se casou com o terceirense (Nove Ribeiras – Ilha Terceira - Açores) Antônio Dias Tostes (I), com vasta descendência. Foram povoadores do Quilombo (atual Bias Fortes-MG), cujo um dos netos, Antônio Dias Tostes (III) foi sogro do engenheiro alemão Henrique Guilherme Ferdinando Halfeld, ambos considerados fundadores de Juiz de Fora – MG. Maiores detalhes de toda a descendência destes encontra-se no artigo de F. Guerín, no sítio do Projeto Compartilhar (vide referências).

Aqui, neste espaço, a razão maior é desenvolvermos a ascendência deste Gaspar Ribeiro, marido da referida Catarina do Prado. A pesquisadora Marta Amato, menciona o seu batismo, na Sé de São Paulo, em 02/09/1648, onde costa que o mesmo era filho de Manoel Preto de Moraes e Inês Ribeira. A autora, em sua obra, desenvolve a ascendência materna: Inês Ribeira era filha do licenciado Gaspar Manuel Salvago e Ana Ribeiro, neta materna de Pedro Martins “o velho” e Isabel Nunes.
Manoel Preto de Moraes, pai de Gaspar Ribeiro, tem sua filiação revelada no documento de casamento com Inês Ribeira, em 28/11/1642, em São Paulo, conforme pesquisa de Fabrício Guerín. Neste, observou-se que o dito Manoel Preto de Moraes era natural de Beja-PT, filho de Manoel Dias e Isabel Ramos.

Quando verifiquei a filiação do Manoel Preto de Moraes e inseri sua localidade de origem e o nome dos pais no Google [instinto natural de qualquer pesquisador em genealogia, quando descobre antepassados novos], encontrei três resumos/extratos de processos inquisitoriais da Torre do Tombo (Arquivo Histórico de Portugal). Estes arquivos/documentos, mostraram que uma irmã (Maria das Neves), a mãe (Isabel Ramos) e avó (Francisca Dias) do dito Manoel Preto de Moraes foram presas, processadas e sentenciadas pelo Santo Ofício, todas pelos crimes de “judaísmo, heresia e apostasia”. A documentação encontrada é vasta, com grande riqueza de informações, via testemunhos, de onde depreende-se hábitos, parentescos, genealogia, as acusações e sentenças. As páginas, digitalizadas, estão disponíveis no sítio da Torre do Tombo (vide referências). Ainda estou lendo e estudando esses processos, mas, adiantarei aqui algumas informações, de maior destaque e relevância.
No primeiro processo, de Maria das Neves (irmã de Manoel Preto de Moraes), presa em 23/08/1628, sentenciada e com auto-de-fé em 01/04/1629, encontramos informações de grande valor entre as páginas 39 e 42. Breve resumo:


“(...) DISSE CHAMAR-SE MARIA DAS NEVES, QUE TEM 1/8 DE CRISTÃ-NOVA, SOLTEIRA, DE IDADE DE 19 ANOS, NATURAL DA CIDADE DE BEJA, E AÍ MORADORA AO TEMPO DA SUA PRISÃO, E QUE SEU PAI É JÁ DEFUNTO, E SE CHAMOU MANOEL DIAS, CRISTÃO-VELHO, LAVRADOR, E ERA NATURAL DO TERMO DE BEJA, E QUE SUA MÃE SE CHAMA ISABEL RAMOS, QUE TEM ¼ DE CRISTÃ-NOVA, E É MORADORA EM BEJA, DE ONDE É NATURAL, E QUE SEUS AVÓS PATERNOS SÃO JÁ DEFUNTOS, E SE CHAMARAM JOÃO FERNANDES, LAVRADOR, E LEONOR DIAS, CRISTÃOS-VELHOS, E FORAM NATURAIS DO TERMO DE BEJA, E QUE SEU AVÔ MATERNO É JÁ DEFUNTO, E SE CHAMOU MANOEL RODRIGUES, CRISTÃO-VELHO, LAVRADOR, NATURAL DO TERMO DE BEJA, E QUE SUA AVÓ POR ESTA PARTE SE CHAMA FRANCISCA DIAS, QUE OU TEM ¼ DE CRISTÃ-NOVA, OU É MEIO-QUARTO (...) E QUE ELA TEM UM IRMÃO INTEIRO, QUE SE CHAMA MANOEL PRETO, SAPATEIRO, SOLTEIRO, DE 16 ANOS, QUE SE AUSENTOU DE BEJA NÃO SABE PARA ONDE, NEM SE É VIVO, E QUE ELA TEM MAIS UMA MEIA-IRMÃ (...), QUE SE CHAMA MARIA, DE 5 ANOS, E É DO SEGUNDO QUE TEVE A DITA SUA MÃE, QUE ERA DEFUNTO, E SE CHAMOU FRANCISCO FERNANDES, CRISTÃO-VELHO, BARBEIRO (...).”


As informações supracitadas são de grande valia. Além do atesto de parentesco com seu irmão Manoel Preto, é citada sua ascendência, até seus avós.

Na página 120 do processo, consta a sentença (03/04/1629): foram dados os sacramentos dos Santos Evangelhos, foi mandado querela nos cárceres da prisão, hábito penitencial de ouvir missa e pregação nos domingos e dias santos.

“Querela”, tem por significado “lamentação, expressão de sofrimento; queixa”, podendo também ser entendido como “denúncia”, em termos jurídicos. No contexto do processo aqui referido, não tenho conhecimento sobre as características processuais do Santo Ofício (Inquisição) para entender o real e exato significado do dito termo.

Isabel Ramos (mãe de ambos) e Francisca Dias (avó) também foram processadas, sob acusações dos mesmos crimes: “judaísmo, heresia e apostasia”. Nas páginas 93 e 43 (respectivamente) de ambos os processos constam as seções de genealogia, onde é possível avançar ainda mais na ascendência da família. Ainda estou a estudar os processos de ambas.

Visto as informações processuais coletadas até o momento, é possível reconstituir a genealogia de toda a família, além de verificar a linhagem materna, cuja herança judaizante é demonstrada:




Além da genealogia ser prazerosa, quanto a sua pesquisa e entendimento, vi este estudo e texto como uma missão. Resgatar a história de antepassadas que foram presas e sentenciadas, em razão de perseguições religiosas, é como imortalizar seus nomes e impedir o esquecimento de suas vidas e sofrimentos, por parte de seus descendentes, genealogistas e historiadores. E que não esqueçamos os tortuosos e difíceis caminhos trilhados por estes homens e mulheres, que fazem parte de nossa história e nossas vidas.


BIBLIOGRAFIA:

Pedro Martins. Fabrício Guerín e Bartyra Sette. Projeto Compartilhar. Atualização em 30-maio-2017. Disponível em: http://www.projetocompartilhar.org/Familia/PedroMartins.htm

Gaspar Ribeiro Salvago – Aportes a Genealogia Paulistana. Fabrício Guerín. Projeto Compartilhar. Atualização em 19-dezembro-2015. Disponível em: http://www.projetocompartilhar.org/Familia/GasparRibeiroSalvago.htm

GENEALOGIA PAULISTANA - Luiz Gonzaga da Silva Leme (1903 - 1905). Reedição coordenada por Marta Amato (2002). Conteúdo original: 9 volumes. Correções e Acréscimos: 2 volumes.
1 CD-ROM. Correção e Acréscimo citado: Maria C. Exner Godoy Isoldi, Vol. 10º – páginas 1197 a 1204.

PROCESSOS (INQUISIÇÃO) – TORRE DO TOMBO:

Maria das Neves:
http://digitarq.arquivos.pt/details?id=2363489

Isabel Ramos:
http://digitarq.arquivos.pt/details?id=2366803

Francisca Dias:
http://digitarq.arquivos.pt/details?id=2366837